Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

A fatalidade e os pressentimentos



Um dos nossos correspondentes nos escreveu o que segue:


No mês de setembro último, uma embarcação leve, fazendo a travessia de Dunkerque à Ostende, foi surpreendida por um tempo agitado e pela noite; o barquinho soçobra, e das oito pessoas que o tripulavam, quatro perecem; as outras quatro, entre as quais me encontrava, conseguiram se manter sobre a quilha. Permanecemos toda a noite nessa horrível posição, sem outra perspectiva do que a morte, que nos parecia inevitável e da qual experimentamos todas as angústias. Ao amanhecer, tendo o vento nos levado à costa, pudemos ganhar a terra a nado.


Por que nesse perigo, igual para todos, só quatro pessoas sucumbiram? Anotai que, por minha parte, é a sexta ou sétima vez que escapo de um perigo tão iminente, e quase nas mesmas circunstâncias. Sou verdadeiramente levado a crer que mão invisível me protege.


Que fiz para isso? Não sei muito; sou sem importância e sem utilidade neste mundo, e não me gabo de valer mais do que os outros; longe disso: havia, entre as vítimas do acidente, um digno eclesiástico, modelo de virtudes evangélicas, e uma venerável irmã de São Vicente de Paulo, que iam cumprir uma santa missão de caridade cristã.


A fatalidade me parece ter um grande papel no meu destino. Os Espíritos, nela não estariam para alguma coisa? Seria possível ter, por eles, uma explicação a esse respeito, perguntando-lhes, por exemplo, se são eles que provocam ou afastam os perigos que nos ameaçam?


Conforme o desejo de nosso correspondente, dirigimos as perguntas seguintes ao Espírito de São Luís que gosta de se comunicar conosco todas as vezes que há uma instrução útil para dar:


Instruções dadas por São Luís


1. Quando um perigo iminente ameaça alguém, é um Espírito que dirige o perigo, e quando dele escapa, é um outro Espírito que o afasta?


Resp.: Quando um Espírito se encarna, escolhe uma prova; escolhendo-a se faz uma espécie de destino, que não pode mais conjurar, uma vez que a ele está submetido; falo de provas físicas. Conservando o Espírito no seu livre arbítrio, sobre o bem e o mal, é sempre o senhor para suportar ou repelir a prova; um bom Espírito, vendo-o enfraquecer, pode vir em sua ajuda, mas não pode influir, sobre ele, de maneira a dominar a sua vontade. Um Espírito mau, quer dizer, inferior, mostrando-lhe, exagerando-lhe um perigo físico, pode abalá-lo e amedrontá-lo, mas, a vontade do Espírito encarnado não fica menos livre de todo entrave.


2. Quando um homem está no ponto de perecer por acidente, me parece que o livre arbítrio nisso não vale nada. Pergunto, pois, se é um mau Espírito que provoca esse acidente, que dele é, de algum modo, o agente; e, no caso em que se livra do perigo, se um bom Espírito veio em sua ajuda.


Resp.: O bom Espírito ou o mau Espírito não pode senão sugerir bons ou maus pensamentos, segundo a sua natureza. O acidente está marcado no destino do homem. Quando a tua vida é posta em perigo, trata-se de uma advertência que tu mesmo a desejaste, a fim de te desviares do mal e de te tomares melhor. Quando tu escapas desse perigo, ainda sob a influência do perigo que correste, pensas mais ou menos fortemente, segundo a ação mais ou menos forte dos bons Espíritos, em te tomares melhor. O mau Espírito sobrevindo (digo mau subentendendo que o mal ainda está nele), pensas que escaparás do mesmo modo de outros perigos e deixas, de novo, tuas paixões se desencadearem.


3. A fatalidade que parece presidir aos destinos materiais de nossas vidas seria, pois, ainda o efeito do nosso livre arbítrio?


Resp.: Tu mesmo escolheste tua prova: quanto mais ela é rude, melhor tu a suportes, mais tu te elevas. Aqueles que passam sua vida em abundância e na felicidade humana, são Espíritos frouxos que permanecem estacionários. Assim, o número dos infortunados sobrepuja em muito o dos felizes desse mundo, tendo em vista que os Espíritos procuram, em maior parte, a prova que lhes será a mais frutífera. Eles vêem muito bem a futilidade de vossas grandezas e de vossas alegrias. Aliás, a vida mais feliz é sempre agitada, sempre perturbada, não seria isso senão pela ausência da dor.


4. Compreendemos perfeitamente essa doutrina, mas isso não nos explica se certos Espíritos têm uma ação direta sobre a causa material do acidente. Suponhamos que no momento em que um homem passa sobre uma ponte, essa ponte se desmorona. Que impeliu o homem a passar nessa ponte?


Resp.: Quando um homem passa sobre uma ponte que deve se romper, não é um Espírito que o conduz a passar nessa ponte, é o instinto do seu destino que para lá o leva.


5. O que fez desmoronar a ponte?


Resp.: As circunstâncias naturais. A matéria tem nelas suas causas de destruição. No caso do qual se trata o Espírito, tendo necessidade de recorrer a um elemento estranho à sua natureza para mover as forcas naturais, recorrerá antes à intuição espiritual. Assim tal ponte adiante se rompe, a água tendo desconjuntado as pedras que a compõe, a ferrugem tendo corroído a corrente que a suspenda, o Espírito, digo eu, ensinará antes ao homem para que passe por essa ponte do que fazer romper uma outra sob seus passos. Aliás, tendes uma prova material do que eu adianto: qualquer acidente que chegue sempre naturalmente, quer dizer, de causas que se ligam umas as outras, e se conduzem insensivelmente.


6. Tomemos um outro caso no qual a destruição da matéria não seja a causa do acidente. Um homem mal intencionado atira sobre mim, a bala me roça, não me atinge. Um Espírito benevolente pode tê-la desviado?


Resp.: Não.


7. Os Espíritos podem nos advertir diretamente de um perigo? Eis um fato que parece confirmá-lo: uma mulher saía de sua casa e seguia pelo boulevar. Uma voz íntima lhe diz: 'Vai-te; retorna para tua casa'. Ela hesita. A mesma voz se faz ouvir várias vezes; então, ela volta sobre seus passos; mas, reconsiderando-se, ela se diz: 'que vou fazer em minha casa? Dela saí; é sem dúvida um efeito de minha imaginação'. Então, ela continua o seu caminho. A alguns passos dali, uma viga que se soltou de uma casa, atinge-lhe a cabeça e a derruba inconsciente. Qual era essa voz? Não foi um pressentimento do que ia acontecer a essa mulher?


Resp.: A do instinto; aliás, nenhum pressentimento tem tais caracteres: sempre são vagos.


8. Que entendeis pela voz do instinto?


Resp.: Entendo que o Espírito, antes de se encarnar, tem conhecimento de todas as fases de sua existência; quando estas têm um caráter saliente, delas conserva uma espécie de impressão no foro íntimo, e essa impressão, despertando quando o momento se aproxima, torna-se pressentimento.


Nota: As explicações acima reportam-se à fatalidade dos acontecimentos materiais. A fatalidade moral está tratada, de modo completo, em “O Livro dos Espíritos”.



Fonte: Revista Espírita (Março de 1858) – Allan Kardec.

8 Comments:

Joana said...

Oi, vc já sabe dessa blogagem para dia 10 de Dezembro?

Já tenho o selo no meu blog, mas vc poderá confirmar se deseja participar no link abaixo.

Blogagem Coletiva Direitos Humanos 2008 II (Aval das Nações Unidas)

Maiores informacoes aqui:

http://fenixadeternum.blogspot.com/2008/11/direitos-humanos.html

Um abraço

Joana

Diogo said...

Excelente postagem amiga... realmente só vem a confirmar que nós somos os artifices de nossa vida... cada luta, cada obstaculo nada mais é que uma prova escolhida por nós, para nosso aperfeiçoamento. A bendita escola da vida a cada dia nos oferece novas lições, em direção a felicidade imortal do bem!!!!! Abração e ótima noite!!!!!!!

Manu said...

Adri, coloquei teus links para ajuda a SC no Plenitude.

Bj amiga!!!!

Tenha uma ótima noite

PSR J1748-2446ad said...

gostei muito do que li neste blog, penso que é uma fonte muito boa para partilha e troca de informações acerca da doutrina; parabéns e continua o bom trabalho

Cecília Pereira said...

Oi Adriana! Que lindo blog! Ja entrou na lista de leituras! haha
Obrigada pelos teus comentários tao gentis no meu diário de viagem!
Beijos e tudo de bom pra ti!!!

Adriana said...

Oi gente!!

Joana, já estou sabendo dessa blogagem sim! Obrigada por avisar! Bjos!

Diogo, exatamente, meu amigo! Creio que essa é a essência da mensagem! Abração!

Manu, que legal, eu sabia que vc tb iria divulgar! Beijos e obrigada!

PSR..., essa é a minha intenção com esse blog. Fique à vontade para emitir suas opiniões e compartilhar experiências! Obrigada e volte sempre!

Cecília, eu é que agradeço tua visita aqui! Adorei teu blog, fico feliz que tenhas gostado desse aqui! Beijos, muita luz pra vc!

said...

Seus textos sempre me esclarecendo de tudo.
Lindo fds para ti minha linda, estou no maior corre-corre de fim de ano.É que pego muitas para fazer e me esqueço que sou sozinha aí fico muito cansada, quero ler todos blogs amigos e muitas vezes não dá, fico em falta. Mas hoje consegui ler tudinho e até passei algumas coisas para o Nando.
Beijos muitos beijos!
Rô!

Adriana said...

Oi Rô!!

Não se preocupe, sinto sua falta por aqui mas imagino a trabalheira. Também não estou com muito tempo, mas isso não é novidade, né? Rsrs..

Espero que seu final de ano seja tranquilo, com muita paz e harmonia com toda sua família!

Mil beijos e tudo de bom!!